Uma atitude comunitária em tempos de confinamento?

Neste tempo de festa e alegria da Igreja, somos convidados a reaprender, com criatividade e docilidade, a sermos comunidade nos lugares e relações nas quais estamos inseridos. Como é possível uma atitude comunitária em um tempo de confinamento? Somos hoje convidados a ter um olhar de Deus para a história que estamos vivendo, fazendo memória daquilo que o Senhor fez por nós e alimentando o desejo de vivenciar mais autenticamente a nossa relação com o Senhor.

A impossibilidade de celebrar em uma assembleia eucarística – fonte e ápice da vida cristã (SC, n.10) – não quer dizer impossibilidade de entrar em comunhão com o Senhor e o seu Mistério de salvação. Essa impossibilidade de participar da celebração não deve nos acostumar a uma fé intimista. Precisamos sim estarmos conscientes de que nossa familiaridade com o Senhor é pessoal e íntima, mas também sempre comunitária, sem jamais deixar de lado a presença ao redor da Palavra, uma vez que Ele mesmo nos fala quando na Igreja se proclama a Escritura (SC, n. 7). Para que isso seja possível, o Papa Francisco sugere: “recuperar a memória, porque a memória nos ajudará. Hoje é tempo de recuperar a memória. (…) Devemos recuperar a memória das raízes, da tradição, que é memoriosa”.

Nessa memória da história da salvação, tivemos épocas de privação, inclusive nos tempos da origem, nos quais Deus entregou, por vias criativas, o que seu povo precisava. Os Atos dos Apóstolos, retrato dessa Igreja primitiva, revela como o Espírito Santo formou a comunidade cristã, também a partir de ritos e gestos atualizados. Recordar alguns desses momentos nos encoraja à alegria nova deste tempo pascal único.

Um fato “miraculoso” da história da Igreja vem à memória: aquele dos cristãos do Japão. O Evangelho chegou naquele país na segunda metade do século XVI e rapidamente se desencadeou uma perseguição religiosa que contribuiu para o martírio de muitos estrangeiros e fiéis japoneses. Essa perseguição fez com que na metade do século XVII já não houvesse mais Padres em diversas regiões e, consequentemente, tornou-se impossível a celebração dos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação. Quando o Japão voltou a se abrir ao Ocidente, no final do século XIX, os primeiros que ali chegaram descobriram que a fé não havia morrido e encontraram milhares de cristãos que a conservaram durante mais de dois séculos sem a presença de ministros ordenados. Graças à memória de alguns textos bíblicos e de algumas orações que sabiam de cor e que rezavam em casa. Também eram sustentados pela esperança de uma profecia que dizia que em algumas gerações chegariam barcos com confessores.

Nesse breve relato vemos que as crises são sim um perigo, mas também uma oportunidade. E o Papa Francisco diz: “é a oportunidade de sair do perigo”. De fato, esta é uma oportunidade de conversão, um momento único para entrarmos novamente em contato com o nosso ambiente real. Um tempo querido por Deus para recuperar a dimensão da contemplação.

Aqui fazemos memória também daquelas muitas comunidades que geralmente não têm acesso à celebração diária, semanal e às vezes sequer mensal. O Sínodo para a Amazônia muito bem nos fez olhar com carinho para essa realidade que nos interroga se temos sido parte dos Sacramentos ou espectadores de uma ação alheia. Sem dúvida para a Igreja este momento se apresenta propício para se questionar a respeito da vida espiritual dos leigos e sobre quais instrumentos podem ser utilizados nesse percurso, de modo que não sejam meramente técnicos, mas realmente concretos na vida de cada fiel, de modo que toda a Igreja se beneficie por um patrimônio novo e comum de experiências.

Tudo isso nos inspira a dizer que, em tempos extraordinários, é possível viver sem a participação física da comunidade mas que, sobretudo, se trata de um tempo em que o convite a fazer memória da Palavra de Deus é vital para a conservação da nossa fé alimentada pela Esperança. Diante disso, “a criatividade do cristão deve se manifestar em abrir novos horizontes, abrir novas janelas, abrir transcendência para com Deus e os homens, e deve se redimensionar em casa. Não é fácil ficar fechado em casa. Recordo-me de um verso da Eneida que, no contexto de uma derrota, dá o conselho de não desistir. Preparem-se para tempos melhores, porque naquele momento isso nos ajudará a recordar as coisas que aconteceram agora. Cuidem-se bem para um futuro que virá. E quando este futuro chegar, fará muito bem recordar o que aconteceu agora” (Papa Francisco).

[As citações do Papa Francisco foram extraídas da entrevista que o Papa concedeu ao jornalista e escritor britânico Austen Ivereigh, disponível em: https://www.vaticannews.va/it/papa/news/2020-04/papa-francesco-pandemia-intervista-tablet-commonweal.html%5D.

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